quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

LIMITES




Para tudo existe um limite.
Os limites só aparecem no futuro, quando já é passado, quando já é história, como um simples registro, um rastro, vestígios.

Estão aquém dos nossos poderes sensoriais, não fazem parte do nosso agora, não podem ser sentidos nem vistos a olho nu.
Mas existem.

Sentam-se à mesa do café, a cada manhã, nos fazendo companhia em um mundo paralelo.
O mesmo mundo em outra época.
O mundo nos jornais.
Diversos limites ficam lá registrados, os de outros, os de coisas, mas nunca os nossos.
*
*
De acordo com James Howard Kunstler, e eu estou inclinado a concordar com ele, a implosão da “bolha imobiliária” está amplamente mal-entendida.
Não representa apenas o colapso do mercado de uma espécie de commodity, sim o fim de um sistema urbano, o modo de vida que representa, e de uma inteira economia a ele conectado.
É o craqueamento de um sistema em que os EUA tem investido grande parte de sua riqueza desde 1950.
Parece trágico que os investimentos desastrosos somente se aceleraram à medida que o sistema inteiro vem abaixo, mas parece ser uma lei natural que as ondas só elevam suas cristas quando prestes a quebrar.
É o fim do “american way of life” baseada na indústria automobilística, construção das “highways”, do petróleo farto e barato, que o mundo inteiro se ocupou em copiar.
Agora, paciência.
O pior, continua Kunstler, ao invés de iniciar o duro processo do recomeço para um novo estilo de vida, empreenderemos uma campanha para sustentar o insustentável estilo de vida atual a qualquer custo.
O colunista da Fortune, Stanley Bing, escreveu que Bush foi pedir misericórdia no deserto. Bush falou ao rei que o óleo está muito caro e que está sendo difícil para a economia americana.
Pediu para que a OPEC aumente a produção, fundamentando que se a economia de um grande comprador fosse abalada eles poderiam ter suas vendas diminuídas e também serem afetados de alguma forma.
Uma lógica pueril.
Como Bing disse, é um modelo para atitude de todos nós. Quando algum produto te parecer caro, não compre, simples, e assim tudo se resolve.
Se a despeito da enorme crise de energia que ameaça a se abater pelo mundo, alguém ainda ousa a se aventurar na Bovespa, este mercado insano, pelo menos que evite as grandes energívoras, como as relacionadas com a indústria do alumínio e do aço, transportes aéreos e por aí vai, e boa sorte.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

FLIP-FLOP


"I've never seen such a flip-flop in an environmental treaty context ever."
(Bill Hare, Greenpeace, com referência ao comportamento dos EUA em Bali)

Os americanos quando falam em flip-flop, geralmente estão se referindo às sandálias de dedo do tipo havaianas.

Mas não foi o caso.

O que os americanos fizeram em Bali, ali representados por Paula Dobriansky, foram se manter isolados, não assumindo qualquer compromisso e até obstruindo de certa forma as negociações até que o Secretário-Geral das Nações Unidas disse, antes de se retirar para o Timor-Leste, que a espécie humana poderia desaparecer da face da Terra em função das mudanças climáticas.
Dizem, que Paula Dobriansky, após o fato e um suspiro profundo, declarou: “juntamo-nos a um consenso”.

Armado o circo, no centro do picadeiro EUA chamam Japão e Canadá como aliados, enrolam as negociações para 2008, no Havaí, onde será apresentado o projeto de protocolo para ser aprovado em 2009, em Copenhague, Dinamarca, em substituição ao de Kyoto que perde a validade em 2012.

Na teatral solução, foi reservado à Europa o papel de salvadora do mundo. Falaram Brown, a Merkel e outros líderes de países europeus pedindo gratidão internacional.

Um excelente presente de Natal e Ano Novo.

“Nenhum dos panegiristas mencionou as dezenas de milhões de pessoas pobres que continuam a morrer de doenças e fome cada ano, devido às complexas realidades atuais, como se vivêssemos no melhor dos mundos” , observou Fidel Castro.

O Grupo dos 77, que abrange 132 países que lutam por se desenvolver, tinha conseguido o consenso para demandarem dos países industrializados uma redução dos gases que originam as mudanças climáticas para o ano 2020, de 20 para 40% abaixo do nível atingido em 1990, e de 60 para 70% no ano 2050. Além disso, demandavam a consignação de fundos suficientes para a transferência de tecnologia ao Terceiro Mundo.

No lugar das metas e compromissos, vazio e decepção para os ambientalistas do mundo inteiro.

A desculpa para a manobra americana foi que os países em desenvolvimento tinham que participar no corte de emissões, embora de forma diferenciada, e não pelos desenvolvidos somente, e que Bali deve ser tomado como um “critico primeiro passo” para a realização de um acordo mais amplo.

“Os países em desenvolvimento têm que ter um tratamento diferenciado de acordo com o respectivo tamanho de suas economias e utilização de energia”, disseram, e “qualquer meta em relação ao clima tem que levar em conta o direito legítimo das maiores nações em desenvolvimento de continuar crescendo em bases sustentáveis e com acesso as fontes seguras de energia”, finalizaram.

Com isso, foi retirado do texto o compromisso das nações industrializadas européias de reduzir as emissões em 25-40% pelo ano de 2020.

No lugar, “serão necessários cortes profundos nas emissões globais com vistas ao fim maior” de evitar perigosas alterações climáticas.

Como naquela estória de colocar a vaca dentro de casa e depois tirar a vaca para fora e sentir certa sensação de alívio, os EUA enrolam, e o mundo perde mais dois preciosos anos.

Isto foi o que Bill Hare quis dizer com o flip-flop.

Enquanto isso, exatamente na mesma data, 15 de dezembro, Bush conseguia a aprovação pelo Senado, da verba de 696 bilhões de dólares (quase um PIB brasileiro) para o orçamento militar de 2008, sendo 189 bilhões a serem gastos nas guerras do Afeganistão e Iraque.

Ao contrário de Niemeyer, Bush permanecerá incoerente e inconseqüente até o final.

O governo brasileiro também se furta a imitar o comportamento do gênio da arquitetura, permanecendo incoerente da mesma forma que os americanos.

A posição do Itamaraty era de não aceitar metas internacionais de redução de emissões de gases causadores do aquecimento global para países em desenvolvimento, como já tinha se pronunciado o subsecretário de assuntos políticos do Ministério de Relações Exteriores, Everton Vieira Vargas.

O diplomata tinha rejeitado a proposta do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de fixar em 20% a redução de emissões dos gases-estufa até 2050 pelos países em desenvolvimento.

"É uma visão injusta e míope querer comparar responsabilidades da Índia e da China nas emissões com as dos EUA e da Europa", disse. Ele afirmou que, embora seja um dos maiores poluidores do mundo, a China não aumentou suas emissões considerando o número de habitantes.

Foi com base em posições similares que os EUA conseguiram levar a discussão para o Havaí, e forçar os emergentes a fazerem a sua parte.

A discussão assumiu um aspecto pueril e primitivo, do tipo: se os desenvolvidos conseguiram desenvolvimento as custas do ambiente por que não podemos nós também?

A febre da incoerência atingiu os nossos políticos provavelmente contaminados pelo descaso americano.

No Brasil, poucos estudos têm sido efetuados para que se consiga avaliar a extensão dos danos de um aumento de temperatura teria sobre nossa economia e bem estar.

No entanto, o Programa de Energia Transparente do Instituto Acende Brasil apresentou um estudo datado de outubro/2007 onde mostra claramente a progressiva diminuição da energia armazenada total ao longo dos anos na forma de recursos hídricos ou um esvaziamento gradual do sistema, projetando para outubro de 2011 cerca de 8% a menos de água nos reservatórios das hidrelétricas.

É bom lembrar que as propriedades físico-quimicas da água permanecerão inalteradas. Maior temperatura implica em menos quantidade do elemento no estado sólido e líquido e maior em estado gasoso.

Então, mantida a tendência, ameaças de apagões, como os verificados em 2001, se tornarão mais freqüentes até se tornarem constantes, obrigando a queima de mais gás nas termoelétricas e alimentando ainda mais o aquecimento global, se não forem tomadas medidas de contenção em outras áreas de consumo de combustíveis fósseis.

O pior, no entanto, é o desmatamento das florestas tropicais, chamadas em inglês de “rain forests”.

O país continua desmatando, de certa maneira incentiva a destruição já que permite a exportação de madeira e móveis com isenção de impostos.

A floresta amazônica retém a água necessária para a manutenção do potencial hídrico daquela região, onde o Brasil deposita suas maiores pretensões para a geração de energia elétrica no futuro próximo.


Estudos internacionais ainda mostram que a Amazônia poderá virar lixo se a temperatura média daquela região subir mais que 3 graus centígrados. A água se evaporará depressa demais matando as árvores que, em decomposição, liberarão o metano, gás quatro vezes mais poderoso em armazenar calor que dióxido de carbono. Toda a região pode se transformar em um deserto.

O país continua permitindo as queimadas, colocando-o entre os maiores poluidores mundiais e anulando quase que totalmente os ganhos com o uso dos bio-combustíveis.

Assim, quem sabe, ano que vem no Havaí teremos o evento patrocinado pelas sandálias havaianas.

Havaianas, vocês sabem, todo mundo usa.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Arca


Excelente a charge de Clayton que saiu publicada em O Povo (CE) em 21-11-2007.


Não resisti em retocá-la.
*
*
Em meio a um cenário internacional conturbado, a queda da CPMF ajuda a jogar a BOVESPA para baixo.
*
*
De acordo com o ex-dirigente do banco central americano, o Federal Reserve, Alan Greenspan, as chances dos EUA entrarem em uma recessão aumentaram sensivelmente.
Greenspan, que esteve no cargo por 18 anos e meio, até o início de 2006, expôs suas considerações sobre a economia em entrevista ao “NPR New’s” na última quinta feira 13/12.

A crise imobiliária e uma Wall Street turbulenta ameaçam a saúde da economia americana. O crescimento no último trimestre de 2007 deverá sofrer uma desaceleração para 1,5% ou menos.
As observações de Greenspan acontecem dias depois que o Federal Reserve, agora sob a direção de Bem Bernanke, cortou a taxa básica de juros em mais 0.25 pontos percentuais na tentativa de salvar a economia dos efeitos das recentes crises.

O corte, dessa vez, não provocou o efeito esperado, o mercado esperava um corte maior. Assim, o índice Down Jones subiu antecipando o corte, mas despencou logo depois diante da efetivação de apenas 0,25%.

Para complicar, o índice de preços por atacado daquele país, database novembro, deu seu maior salto em 34 anos, fornecendo uma leitura de inflação muito mais alta do que a prevista, tendo como grande vilão o alto custo da energia.

O chamado Índice de Preços do Produtor subiu em novembro 3,2% , contra um aumento de apenas 0,1% em outubro.

A onda de baixa atinge o mundo inteiro. De acordo com a Reuters, as bolsas asiáticas aprofundaram suas perdas nesta segunda-feira (17/12) fechando em baixa não vista há três meses em meio a receios de que a aceleração da inflação nos EUA possa impedir que o Federal Reserve continue cortando a taxa básica de juros.

“Inflação mais alta nos EUA reduzirá o ritmo de corte da taxa de juros. É por causa disso que os investidores estão chateados”, disse Francis Lun, gerente geral da Fulbright Securitização em Hong Kong.

Investidores também estão preocupados com um arrocho maior na China enquanto o governo procura controlar a inflação, a maior em dez anos. A economia Chinesa vem crescendo a um incrível passo de mais de 11% em medições realizadas no último semestre.

A questão agora é saber até onde as bolsas podem cair. Analistas em todo o mundo têm em um mais ou menos consenso que as bolsas estão supervalorizadas em razão dos últimos ralis de euforia, tendo o presidente do Banco Central do Brasil alertado para o fato algumas vezes.

As esperanças agora pousam na tecnologia. Os EUA anunciam que irão mexer nas normas reguladoras de eficiência para que veículos mais econômicos sejam desenvolvidos, e assim criar espaço para a indústria automotiva crescer em tempos de altos preços do petróleo, como ocorreu na década de 80.




terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Outras Possibilidades


Em julho de 2006 os campos mundiais bombearam petróleo a uma taxa de 85,5 milhões de barris diários. Desde então, eles não chegaram nem perto disso, mesmo com os preços variando de US$ 75 a US$ 98 por barril. Isto levanta a significativa questão: Estaria a produção indo morro abaixo?


Não é como se ninguém tivesse predito isto. Os verdadeiros crentes no que é chamado “Pico do Petróleo” reúne um grupo de sobreviventes, os avessos ao capitalismo, alguns poucos investidores bilionários e vários respeitáveis geologistas, há muito, esperam por isto no decorrer desta década.


No ambiente das indústrias do óleo e das agências governamentais que trabalham com isto, tal conversa é tida como prematura. Tem havido quedas de produção em tempos passados, acima de tudo, mesmo que acorridas em tempos de crise. Na maioria dos cenários criados por eles, a produção mundial começará a crescer de nove em breve, atingindo um pico de mais de 110 milhões de barris em 2030 ou arredores.


Isto em si, já é mais que alarmante. Mesmo os mais otimistas acreditam que temos menos de três décadas para início de escassez? Mas as conferências da industria neste último quadrimestre têm sido bem mais sombrias. Os executivos da ConocoPhillips e da gigante francesa Total, ambos declararam que eles não vêem a produção atingir 100 milhões de barris diários em qualquer época. A maior autoridade no assunto que é a International Energy Agency dos EUA já alertou que “novos incrementos na capacidade produtiva não estão em consonância com o declínio de produção dos atuais campos e do aumento da demanda projetada”.

Isto não é o mesmo que dizer que a produção já atingiu seu pico e está para declinar rapidamente – visão dos verdadeiros adeptos à teoria do pico. Na teoria do pico “lite”, como alguns a chamam, o cerne da questão não seria tanto geológica quanto política, técnica, financeira ou mesmo relacionada a recursos humanos. Todos estes fatores atrasam a chegada do óleo no mercado, significando que a produção não atingiria um pico mas um platô. Mas com a crescente demanda mundial, principalmente as verificadas na China e na Índia, mesmo a ocorrência de um platô resultaria em suprimento precário.

Não que seja que o óleo esteja acabando. Existem reservas massivas disponíveis como nas areias betuminosas canadenses, Xisto do Colorado, óleo extra-pesado da Venezuela e outras reservas não convencionais. O problema é que este óleo é difícil de extrair e de ainda mais difícil refino, e não se poderá contar com a sua produção em escala mundial em tempo próximo. Quase todos concordam que a produção de petróleo convencional fora dos paises da OPEC já atingiram o pico ou em breve atingirão, uma realidade que mesmo as recentes descobertas de 8 bilhões de barris na costa do Brasil não serão capazes de contrabalançar o declínio de diversos campos em operação.
A questão principal é a OPEP, que representa as forças do óleo no Oriente Médio e outros poucos grandes exportadores, representando 41% da produção mundial de petróleo. Todo cenário otimista diz que esta fatia crescerá dramaticamente nas próximas décadas. Quer dizer, se as coisas se encaminharem bem, EUA assim como as demais nações importadoras se tornarão substancialmente mais dependentes da Arábia Saudita e seus vizinhos.

O quadro se torna sombrio. Em seu livro “Twilight in the Desert” de 2005, o banqueiro e investidor na área energética, Matt Simmons abriu um ainda vivo debate sobre quando a Arábia Saudita, o maior produtor da OPEP, poderia aumentar sua produção atual. Desde o lançamento do livro, a produção daquele país caiu de 9,6 milhões de barris diários para 8,6 milhões, a despeito dos preços ascendentes.

Matt Simmons é um adepto da teoria do pico, pertenceu ao governo americano como conselheiro de Bush para assuntos energéticos. Faz tempo que o assunto deixou de ser tratado pelos “apocalípticos” e passou a ser analisado pelos estrategistas.

Oficiais sauditas proclamaram na ocasião do encontro da OPEP realizado em Riyadh, em meados de novembro, que a produção pode ser aumentada a qualquer tempo. Mas isso levanta a impertinente questão: por que não aumentam?
A resposta dos lideres da OPEP é que os especuladores é que são culpados pelos altos preços e também o dolar em queda, nada a ver com baixa produção. Eles não estão simplesmente soltando fumaça. Lynn Westfall, economista chefe da refinaria Tesoro Corp., diz que existe mais óleo à venda do que o suficiente atualmente. A pressão nos preços, como ele explica, “provem de especulação no mercado financeiro de futuros.”

Se os membros da OPEP não são capazes de incrementar a produção , então será impossível continuar culpando os investidores pela alta nos preços. O que acontece então? “Se tivéssemos melhores informações, poderíamos dizer no encontro mundial da OPEP: “Senhores, não é culpa de ninguém, mas o que acontece é que chegamos no limite,” diz Simmons. “Teremos que adotar algumas práticas de preservação que são draconianas, ou faremos guerra um contra o outro.”

Entre os adeptos da teoria do pico, guerra e catástrofes econômicas são temas preferidos. Eles sustentam que óleo barato é o combustível essencial ao moderno capitalismo, que afundará sem ele. A maior esperança é que a inovação é que seja o combustível essencial ao capitalismo moderno e que os altos preços do óleo levarão a avanços rápidos na direção do desenvolvimento de combustíveis alternativos e preservação do petróleo restante. De outro modo, o início do final da era do óleo estaria bem á frente no cronograma.

A parte:


O último relatório do IEA, mês base outubro, exibe uma produção mundial média diária de petróleo de 86,43 milhões de barris ao dia, superando em quase 1 milhão de barris a maior antes registrada, 85.5 milhões em julho de 2006, como dito no início deste artigo. Ainda não representa evidência que a produção mundial tenha voltado a crescer, por se situar ainda na faixa dos desvios esperados quando se faz a distribuição estatística.
O gráfico acima mostra a evolução da produção do petróleo nos últimos 5 anos, dados da EIA (Energy Information Administration), americana, e da IEA (International Energy Agency) sediada em Paris.

Baseado em artigo de Justin Fox

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Subdesenvolvimento Humano


IDH do Brasil sobe para 0,8 e país entra para grupo de Alto Desenvolvimento Humano

A manchete acima e outras do tipo: “Brasil passa a ser considerado um país desenvolvido” disputavam espaço na banca em que passo sempre, junto à esquina, ponto fixo de dois mendigos e dos malabaristas infantis que se exibem para os veículos parados na sinaleira, no caminho para o Shopping Barra em Salvador.

Criado pelos economistas Mahbub ul Haq e Amartya Sen, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mede a qualidade de vida por outros indicadores que não apenas o Produto Interno Bruto, saltou, no caso do Brasil, de 0,798 para 0,800, uma fantástica evolução a julgar pelas manchetes, mas a julgar pelos números, o país se arrasta. Corre até o risco de estar parado ou mesmo andando para trás, pois uma diferença de 2 milésimos na pontuação pode estar muito bem na margem de segurança dos cálculos.

Mas vai mesmo devagar, tendo conseguido a façanha de ultrapassar uma linda ilha do Caribe, Dominique, mas sendo ultrapassado pela Arábia Saudita e Albânia, perdendo terreno para Argentina, Chile e México.

Muito se fala sobre o problema educacional no Brasil. Ouvi outro dia a Globo dizer que o país não quer saber de educação, caso contrário, o candidato que tinha como plataforma a revolução do sistema educacional brasileiro não teria tido tão poucos votos (Cristovam Buarque).

A quem eles querem culpar com esse dito ninguém sabe, porque espaço quase nenhum recebeu o ex-petista na mídia. E quanto ao nível intelectual de nossos profissionais da imprensa, está estampado nas manchetes.


Assim, o mais provável é que soframos de ignorância generalizada.

O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007, que usa dados de 2005, teve como tema o aquecimento global e seu lançamento mundial foi feito em Brasília, com a presença de Lula.
Em um documento de quase 400 páginas o relatório diz que as nações mais ricas devem prover uma soma de 86 bilhões de dólares por ano a partir de 2015 para ajudar o mundo na adaptação ao aquecimento global e que se pretende estabilizar as emissões dos gases causadores do efeito estufa até 2015 e então começar a reduzir.
Sem o dinheiro, continuam, um mundo mais quente poderá reverter o desenvolvimento em países onde 2,6 bilhões de pessoas vivem com 2 dólares por dia ou menos.

Cientistas no mundo inteiro concordam que o planeta aqueceu em média 0,7 graus Celsius nos últimos 100 anos, trazendo a perspectiva de que teremos um século extremo em termos meteorológicos, subida do nível dos mares, grandes inundações, doenças e ataques às reservas naturais, à agricultura e à pesca.


De acordo com o desenvolvimento do problema, as conseqüências incluirão cenários de mulheres e meninas caminhando maiores distancias para pegar água em partes da África, e pessoas construindo abrigos em bambu pelas enchentes no delta do rio Ganges na Índia.

“Estes impactos... seguem ignorados nos mercados financeiros e na medição do produto interno bruto global (PIB),” diz o relatório.

“Mas a crescente exposição a afogamentos, a tempestades mais intensas, a inundações e stress ambiental vem barrando os esforços da comunidade mais carente em construir um mundo melhor para ela e sua prole.”

Por causa do aquecimento global, disse Olav Kjorven, Chefe do bureau para política de desenvolvimento do Programa de Desenvolvimento da ONU, mais 600 milhões de pessoas na região do sub-Saara na África, passarão fome por causa do colapso na agricultura, e um contingente extra de 400 milhões serão expostos à malária e outras doenças, e um extra de 200 milhões perderão moradia em inundações.

O painel do desenvolvimento diz que grande parte da responsabilidade está com as nações mais ricas, responsáveis por elevadas emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa, principalmente pela queima do carvão e outros combustíveis fósseis.

“As nações do mundo que são as principais culpadas, se assim se pode falar, pela criação deste problema em primeiro lugar têm de agir firmemente para salvaguardar o futuro daqueles que não têm nada a ver com ele mas que são os mais vulneráveis,” disse Kjorven.

As nações desenvolvidas, até agora, falham em cumprir as metas estabelecidas sob o corrente tratado, o Protocolo de Kyoto, no corte da emissão dos gases estufa em 2012, diz o relatório.

França, Alemanha, Japão e Reino Unido estão falhando no que seria o corte de 20% das emissões em 2020.

O Canadá assinou o tratado sob o governo anterior, de legenda Liberal. Entretanto, os Conservadores sob a liderança do Primeiro Ministro Stephen Harper tem se distanciado paulatinamente do Protocolo.

Ed Marckey, dirigente do Select Committe on Energy Independence
and Global Warming, disse que o relatório a importância da "América se movendo com o objetivo de alcançar a meta de 80% de corte nas emissões em meados do século."

"Este relatório proporcionará aos líderes em Washington o imperativo moral de apoiar a ação no congresso e na Casa Branca," declarou o democrata de Massachussets

Na cerimônia em que este relatório vem para o conhecimento mundial, o presidente Lula convidou às nações ricas a fazer a parte delas.

" Em Bali nos iremos discutir seriamente o preço que as nações ricas deverão pagar de forma que as nações mais pobres possam preservar suas florestas," Lula disse. "Porque ninguém vai conseguir convencer uma pessoa pobre em lado nenhum que ele não pode derrubar uma árvore sem ter a garantia de trabalho e do que comer em troca."

Cientistas acreditam que a floresta age como uma enorme esponja na absorção dos gases, mas o desmatamento e as queimadas liberam toneladas de carbono na atmosfera a cada ano, fazendo do Brasil um dos lideres na emissão dos gases causadores do efeito estufa.

O relatório também sugeriu entre outras medidas, a redução das tarifas incidentes sobre o álcool brasileiro "poderiam gerar ganhos não somente para o Brasil, mas para a mitigação das mudanças climáticas."

Assim, nem sempre, para enveredar pelos caminhos da sabedoria a escolaridade é necessária. Às vezes pode ser até prejudicial.

O sistema de ensino está atrelado a uma estrutura que impele a humanidade por determinado caminho. Acontece que não há garantia que o atual caminho seja o mais adequado, ao contrário, a impressão que se tem é que nos desviamos em algum ponto no passado, e quanto mais tempo passa, maior a distancia que teremos que percorrer de volta ao ponto de desvio.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O PICO DO PETRÓLEO




Desde que a humanidade se tornou ciente de que o petróleo é um recurso natural limitado, vários estudos têm sido efetuados para, primeiro, estimar a data ou período em que os primeiros sinais de escassez seriam observados e, segundo, criar instrumentos de regulação em um mercado de escassez, porque sendo o óleo um bem mundial e considerando que ele está desigualmente distribuído sobre o Planeta por razões geológicas bem entendidas, com grande parte dele estando concentrado em cinco países junto ao Golfo Pérsico.

Um dos pioneiros neste estudo foi o geofísico M. King Hubbert. Em 1956 Hubbert previu corretamente o pico da produção de petróleo nos EUA com 15 anos de antecedência, lançando as bases teóricas do que mais tarde seria chamado de “Pico de Hubbert. O Pico de Hubbert, também conhecido como Pico do Petróleo, é um modelo matemático que trata e explica a taxa de extração e esgotamento a longo prazo de petróleo convencional e de outros combustíveis fósseis.


Este modelo mostra que a produção petrolífera mundial alcançará no futuro um pico e depois declinará ao longo de poucas dezenas de anos. Baseando-se nos dados disponíveis sobre a produção a Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás, uma associação internacional criada em 2001, projeta, para os arredores de 2010, o pico para o petróleo e algumas dezenas de anos mais tarde para o gás natural.

Isto conduzirá inevitavelmente a gigantescas conseqüências econômicas para o mundo já que a civilização moderna depende de combustíveis fósseis baratos e abundantes, especialmente para os transportes, produção de alimentos, processos químicos industriais, tratamento de água, aquecimento doméstico e geração de eletricidade.


Em suma, o petróleo é o combustível para o desenvolvimento, ou seu alimento.


Particularmente, gosto de traçar um paralelo entre o consumo do óleo e do leite pelas várias crias de uma única fêmea. Cada teta representaria um campo petrolífero que decrescerá de produção e se esgotará em algum tempo futuro, e o desafio é que todas as crias (povos ou paises) tenham seu alimento e a garantia de desenvolvimento que o alimento proporciona. As leis naturais, no caso da fêmea, cuidará para o alimento dos mais fortes fazendo parte do processo de seleção natural como observado por Darwin, mas aos homens, animais dotados de consciência, será inviável a entrega aos instintos sob pena da auto-destruição.

A palavra "escassez" não é bem-vinda ao discurso político contemporâneo. Este fato retira capacidade ao governo de admitir e mitigar os emergentes problemas sociais e econômicos associados ao pico do petróleo. Este é o maior entrave para que se deflagre um programa de conscientização e racionamento. Ao contrário, interesses econômicos, principalmente mais fortes nas nações mais ricas, tudo farão para negar qualquer tipo de escassez e razões para frear o consumo, diminuindo seus lucros em favor do bem coletivo. O sistema vigente de economia de mercado tem como pedra fundamental o egocentrismo: maior-produção-maiores-lucros-menores-preços-maior-distribuição-desenvolvimento.

A queda de produção do principal produto de consumo tenderá a quebrar esta cadeia.
A administração global da escassez só será possível com a assinatura de um protocolo para manter os preços, sendo que as nações mais desenvolvidas entrarão em um período de pequeno índice de desenvolvimento ou estagnação em favor das mais pobres para que diferenças mais acentuadas sejam mitigadas e o globo acertar o passo em termos energéticos.

Concordo que isto mais parece uma utopia.

De acordo com o modelo matemático proposto por Hubbert, inicialmente um pico na produção petrolífera manifestar-se-ia através de uma escassez estrutural de petróleo por todo o mundo. Esta escassez, como a que parece estar acontecendo no momento, diferenciar-se-ia de outros períodos de escassez do passado devido à sua origem fundamentalmente geológica e não política. Enquanto as anteriores se materializaram numa insuficiência temporária do aprovisionamento, ao cruzar o pico de Hubbert isso significaria que a produção de petróleo continuaria em declínio e que a procura deve ser reduzida para equilibrar o mercado. Os efeitos de tal escassez dependem da taxa de declínio e do desenvolvimento e adoção de alternativas. Se as alternativas não forem impulsionadas, então muitos produtos e serviços, produzidos com petróleo, tornar-se-ão igualmente escassos, levando a um declínio do nível de vida em todos os países importadores. Os cenários previstos vão desde os "apocalípticos" até à "crença que a economia de mercado e novas tecnologias vão resolver o problema".

A economia de mercado, como já se tem dito, é incapaz de lidar com um produto essencial e com a produção em declínio, os preços tendem para o infinito inflacionando a economia como um todo. Já a tecnologia não pode fazer milagres. Os poços são abandonados quando a energia despendida para trazer o óleo à superfície é igual ou maior que a energia obtida armazenada em forma de combustível. Da mesma forma, para a exploração do petróleo não convencional (areias betuminosas, óleo extra-pesado e xisto betuminoso), avalia-se o custo energético e rendimento, mas bom que se saiba a produção é muitas vezes menor e mais complicada, retardando um pouco os efeitos da escassez mas nunca evitando.

Com o propósito de resolver esses problemas do pico do petróleo, Colin Campbell propôs o protocolo de Rimini. Um protocolo que basicamente propõe um acordo entre países produtores e consumidores para diminuírem em conjunto o consumo e produção de petróleo à taxa de declínio prevista pela curva de Hubbert.

É improvável que o próprio pico do petróleo seja o catalisador direto do declínio econômico global. Em vez disso é provável que a grande turbulência econômica comece com a percepção de que o pico do petróleo (e de gás natural) é iminente ou já ocorreu por parte da comunidade financeira. As indicações de volatilidade econômica já se manifestaram na mais alta subida na taxa de inflação mundial em 15 anos (setembro de 2005), que se deveu sobretudo a altos preços de energia e agora com as altas sucessivas a partir de agosto passado em que o óleo vem quebrando recordes atrás de recordes no mercado internacional aproximando-se dos US$ 100 por barril.

Lembrando também que o gás natural é o maior e mais importante material na produção de fertilizantes, uma escalada nos preços de gás natural pode trazer uma grande pressão inflacionária nos preços dos alimentos, para além do aumento nos custos de transporte.


O problema é sem dúvida afeto aos bancos centrais. O aumento indiscriminado nos preços em dólar e a não retração do consumo provocará um desequilíbrio na oferta da moeda inundando o mercado de um papel que há muito é emitido sem lastro. As reservas dos países emergentes têm crescido abruptamente, 1,4 trilhões de dólares por conta somente da China. Não subestimando a economia americana mas enquanto ainda não existir um banco central mundial, cabem a todos os bancos centrais o estudo profundo do assunto que promete se configurar no maior desafio do século.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O QUARTO SELO





“When the third horse loose its black color, there will be sit upon it, The Death.”


Era uma vez, em que eu navegava pela internet empenhado na pesquisa para avaliar o alcance da visão das autoridades brasileiras do setor energético, quando me detive diante de um artigo, de autoria do Sr. Newton Müller Pereira, geólogo pela UFRGS, mestre pela UFBa, doutor pela EPUSP, pós-doutorado pelo SPRU, UK. Professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG/Unicamp. Embora sem data, pude perceber que foi escrito no ano de 2001 onde se lia:


“Com tantos finais a rondar, fomos também contemplados com outra pérola do apocalipse, mais uma daquelas que põem fim a alguma coisa cara à humanidade, à sociedade, e que, recorrentemente, é alardeada na mídia nacional e internacional. Refiro-me, desta vez, ao Fim do Petróleo.”


Mais a frente, neste mesmo artigo, ele passa a combater as idéias de Colin Campbell e Jean Laherrère que, no final de milênio, publicaram na conceituada revista de divulgação Scientific American, sob o título O fim do óleo barato, segundo ele, “a mais recente peça apocalíptica sobre o assunto”. Já na parte final de seu artigo, ele coloca uma visão, a seu ver, não tão otimista:


“Cenários publicados recentemente pelo Grupo Shell e pela Agência Internacional de Energia, já no presente milênio, dão conta que é muito improvável acontecer escassez de óleo antes de 2025, horizonte que pode ser estendido para 2040 através de ganhos de eficiência em veículos e do lado da demanda de um modo geral. Também informam que o custo de produção do barril de óleo deverá se manter, pelo menos até 2025, num patamar inferior aos US$ 20, pressionado por avanços tecnológicos. Os custos decrescentes do biofuel e da conversão gas to liquids, ambos já bem abaixo dos US$ 20 por barril equivalente de óleo, impõem limites ao aumento dos preços do barril de petróleo”.

Hoje, o petróleo está na casa dos US$ 90 o barril e não se sabe até onde chega.
Inevitável que o homem, pois faz parte de sua natureza, tente antever o futuro. Desde a antiguidade os oráculos eram consultados - o que nos espera? – a pergunta que angustia a todos desde que começamos a tentar entender o mundo ou a nos mesmos. Prognósticos dos mais otimistas aos mais catastróficos tendem a invadir a mídia a cada final de ano.

Mas existem os que não se importam com essa questão.

Num domingo desses, exibia na TV um quadro do programa Silvio Santos em que as pessoas teriam que escolher, diante de uma pergunta, o compartimento relativo a resposta correta. Estando a resposta incorreta, o compartimento era fechado e as pessoas que o adentraram, eliminadas do jogo.
Lembro-me, que em determinado momento, a pergunta era: Qual o maior produtor mundial de tomates? E as opções disponíveis eram Brasil, Itália, China e EUA, parece. Após uma breve indecisão, o grupo se dirigiu em bloco para o compartimento relativo a Itália como sendo a resposta correta. Todos foram eliminados porque a China é de fato o maior produtor de tomates do globo.

As pessoas parecem preferir entregar seu destino a outrem ao invés de enfrentar suas próprias decisões. Ou estão enfadadas ou preferem acreditar que no final tudo vai dar certo, que o governo que resolva e não pensam mais a respeito.

"O wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beautious mankind is!
O brave new world
That has such people in't!"

Em 1932, Aldous Huxley publicou sua mais famosa obra, Admirável Mundo Novo, uma utopia pessimista que parodiava a obra de H. G. Wells – Men Like Gods, uma utopia otimista. Enquanto o mundo paralelo criado por Wells era uma visão socialmente avançada, centrada na integração do homem, deixando o mundo real do passado conhecido como “tempos de confusão”, Huxley aparecia com uma proposta inversa.



Ele apresentava uma sociedade em que o homem aparecia totalmente divorciado da natureza em um mundo artificialmente construído em que nem mesmo o transporte se fazia por terra. O homem no grau máximo de encapsulamento, onde todos os conceitos primários, tais como valores e família haviam sido rompidos em favor de uma sociedade totalmente mecanizada. Esta sociedade adorava o automóvel como um tipo de religião única, tendo as “catedrais”, em seu átrio central, a exposição constante de um modelo do Ford T, o “T” substituía a cruz.

Ainda, o tratamento mais respeitoso às autoridades desse mundo era de “Vossa Fordência”.

As visões pessimistas se parecem mais com a realidade que depois se apresenta. Até o lado otimista deste terrível quadro, que consistia em um formidável desenvolvimento tecnológico com melhoria da qualidade de vida, malogrou. Se é que podemos considerar uma vida de qualidade, uma mais reduzida, porém livre do envelhecimento e doenças. Mas a vida inconseqüente e alienada, regada a muitas festas e drogas, esta sim é a que se fez prevalecer.

Na década de oitenta, um proeminente cientista inglês, Sir James Lovelock, apresentou um estudo, a Hipótese de Gaia, onde ele fornecia indícios, derivados de suas observações em campo, de que o planeta Terra se comportava como um ser vivo quando parecia controlar a temperatura e a composição química atmosférica, de modo que os mantivesse sempre em condições ideais para o desenvolvimento da vida.

O nome Gaia foi tomado da mitologia grega, a deusa Terra.

A Hipótese de Gaia se tornou a Teoria de Gaia alguns anos depois, à medida que novas evidências eram encontradas e passava a ter mais aceitação no meio científico.

Janes Lovelock foi um dos pioneiros a tratar com a devida seriedade o assunto do aquecimento global. Suas projeções com relação ao assunto no que se refere às implicâncias na vida do planeta não são nada otimistas – mesmo que a humanidade pare de queimar os combustíveis fósseis neste momento, o planeta ainda continuaria aquecendo por centenas de anos – a humanidade terá que se adaptar a um clima infernal.

Apenas uma idéia levou toda a humanidade a estar diante de uma situação equivalente a estar em um barco com o motor quebrado próximo as cataratas do Niágara, sem se dar conta.

A idéia infeliz de que o planeta é como uma espaçonave.

Enquanto estava no mar navegando, eu me debatia com uma questão recorrente. Por que a criação tinha parado no homem? Digo em grau de complexidade. Dos microorganismos até os insetos e vertebrados uma infinidade de formas de vida para culminar no homem como o vivente mais complexo não fazia sentido. Deveria existir alguma coisa mais complexa e acima desta coisa mais complexa outra ainda mais complexa até o infinito.

De repente eu descobri o por quê.

Comecei a imaginar como o macaco, por exemplo, poderia ver o homem. Claro que ele não poderia ver o homem como um animal superior e sim como uma forma peculiar de macaco.
Assim, não caberia em nossa cabeça conceber uma coisa superior a nossa porque nossos padrões de referência são inferiores e não entenderíamos como esse ser superior funcionaria.
Colocamos até os deuses na forma humana. A teoria da evolução contraria as escrituras com relação a existência da figura física do Adão e que tenha Deus criado o homem à sua imagem e semelhança.

Entender como seria a vida de um planeta, um ser que poderia ver com muitos olhos e pensar com muitos cérebros e se multiplicasse internamente e não externamente, seria uma tarefa sobre-humana e absolutamente sem amparo no meio científico.

Sir Lovelock, por isso, teve sua teoria marginalizada por um bom tempo, muito em decorrência do próprio nome. O que leva o nome de uma deusa da mitologia não poderia ser levado a sério no meio científico, estando mais para o mundo das crenças e religiões. Eu seu último trabalho, a Vingança de Gaia, o cientista enfatiza a natureza metafórica da alusão ao planeta como um ser vivo.

No meu entender, só há duas formas de ver o homem no contexto existencial. Ou é uma espécie de praga que acomete o planeta que levará à destruição de ambos, ou é uma manifestação de vida do planeta e, portanto, faz parte dele.
Desisti, depois de muitos anos, de ver o homem no mundo de acordo com a primeira hipótese simplesmente por não fazer bem à minha auto-estima, mas para os estudiosos das escrituras, existe uma passagem interessante que coorobora com meu pensamento:

Ele tomou o cego pela mão e levou-o para fora da aldeia. Pôs-lhe saliva nos olhos e, impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa?
O cego levantou os olhos e respondeu: Vejo os homens como árvores que andam.

Se assim é, este mundo é predominantemente habitado por cegos, e pior, governado por cegos.

A tarefa dos profetas, hoje, está bem mais fácil. À medida que nossos comutadores ganham mais capacidade de processamento, as visões futurísticas se tornaram mais acuradas. Sabemos, por exemplo, que o nosso tórrido futuro estará em condição irreversível quando a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera atingir 500 ppm e que existe uma relação entre a geração do CO2 e a queima dos combustíveis fósseis.

Curioso é que no presente assim como no passado ninguém dá a mínima para os profetas.

Poderíamos dizer que, como no caso do maior produtor de tomates, o problema reside na desinformação. Mas a verdade é que não. O problema reside na falta de vontade de saber. O saber nos tira a inocência e pode nos obrigar a sair de uma posição confortável de que não queremos abrir mão gerando mais um problema, o de consciência.

O petróleo vai acabar um dia, isto é aceito como fato. Que o óleo pode ser substituído, isto ainda está no campo da ficção.

O petróleo, ao contrário do que se prega, é uma fonte renovável, o problema é que o consumo atual é muito maior do que a natureza pode repor. Hoje, para atender a demanda mundial, o petróleo deve jorrar no equivalente a um décimo das cataratas do Iguaçu. E esta demanda vem crescendo e os campos de outrora grande produtividade estão em declínio.

Vários estudos apontam que neste ano a humanidade atingiu o pico da produção. Daqui para frente teremos que conviver com uma escassez crescente e altos preços.


A alta nos preços abre a oportunidade para a entrada dos biocombustíveis. Mas aos níveis de consumo atuais, a utilização dos chamados combustíveis verdes somente para aplicação no sistema de transportes, isto é, para manter em movimento os veículos leves e pesados, ferrovias, navios e aviões, demandaria a produção de 3 ou 4 gigatoneladas anuais de produtos agrícolas somente para este fim. Como hoje a produção mundial está perto de 0,5 gigatoneladas anuais, quase que totalmente direcionada aos alimentos, precisaríamos de mais dois ou três planetas para saciar tamanha voracidade.

Está claro que necessitamos é de uma redução de consumo. Como dizem, tem gente demais neste mundo e vivendo de forma errada.

Curiosamente, as previsões de crescimento mundial de consumo permanecem a despeito do disparo de preços do óleo e dos alertas emanados do IPCC (Painel Inter-governamental de Mudanças Climáticas). As metas estabelecidas no
protocolo de Kyoto já estão comprometidas, como admitiram vários países participantes.

Os efeitos do aquecimento global no Brasil são potencialmente severos. Alterações nas freqüências das chuvas e níveis pluviométricos deverão ser esperadas. Maior temperatura significa mais água sob a forma de vapor, o que pode levar a secas maiores e mais prolongadas e, por conseguinte, menos energia gerada nas hidrelétricas.

Isto sem falar nas possíveis quebras de safras.


Um cenário perturbador, para se dizer o mínimo, fazendo com que as previsões do Livro das Revelações assuma um caráter otimista. Mas ninguém vai poder dizer que não podia ser evitado. Como está escrito:

E quando ele abriu o quarto selo, ouvi a quarta criatura vivente de muitos olhos bradar: Vem!

“And I saw, and behold, a pale horse: and he that sat upon him, his name was Death; and Hades followed with him. And there was given unto them authority over the fourth part of the earth, to kill with sword, and with famine, and with death, and by the wild beasts of the earth.”