quinta-feira, 17 de julho de 2008

SEM MISTÉRIO


O cachorro
O nariz que perdi
O gato
A graça que tenho
A girafa
Minha curiosidade
O javali
A minha carne
O pato
Sou engraçado
O cavalo
Animal
O camelo
Minhas corcovas
A tartaruga
Acumulo águas marinhas
As ondas
Preciso dropá-las

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MERA COINCIDÊNCIA

O economista chefe do Deustche bank AG, o maior banco da Alemanha, Adam Sieminski, disse que o petróleo a US$ 200 "quebraria a espinha dorsal da economia mundial.” Considerando que não falta analista a dizer que o preço do óleo pode até passar dessa marca, estamos próximos de ver uma economia mundial paraplégica ou mesmo tetraplégica.

Internamente, o país luta para antecipar o dia do juízo quando a autoridade monetária se arrisca a cair do cavalo e fraturar o pescoço em suas investidas contra os moinhos, resultado de sua política quixotesca.

O Dow Jones recua a níveis de 21 meses atrás e atrás dos rebaixamentos promovidos pelo Goldman Sachs ao Citi e à GM, que por tabela dissolve a bolha criada aqui com o grau de investimento.

Tudo volta ao que era, ou melhor, depois da bebedeira a turma acorda sóbrio, mas na maior ressaca, e subtraído de alguns pertences.

A deterioração de nosso comércio exterior acelera com a valorização cambial ainda mais profunda, a inflação mundial já beira o centro de nossa meta de inflação interna, o BC aumentou para 25% as chances de estouro, e pelo andar da carruagem, deverá anunciar, daqui a algumas semanas, chances de 100% em estourar 25% ou mais.

Todo este desespero deverá se transformar em pânico quando as companhias aéreas não conseguirem mais enrolarem as suas contas com o combustível, obrigando os políticos a atravessarem o final de semana inteiro em Brasília.

Por outro lado, se não puderem mais voltar ao trabalho, a coisa pode melhorar.

Enquanto isso, engrossa a fileira dos críticos à atual política monetária:

Numa entrevista à Folha, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo alertou para o "risco muito grande de déficit externo" que corre a administração de Luiz Inácio Lula da Silva com um câmbio muito valorizado. Defendeu restrição à expansão do crédito. E afirmou que o BC errou ao não reduzir mais os juros quando o cenário externo era favorável e que esse equívoco traz prejuízos hoje. Motivo: eleva o custo de combater a inflação.

O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, disse nesta terça-feira que há espaço para que a taxa de juros Selic caia a níveis semelhantes ao que é praticado no México (hoje em 4%), opinião compartilhada com a do ex-presidente do BC, Armínio Fraga.

Alcides Leite Domingues - professor de Mercado Financeiro da Trevisan Escola de Negócios - em artigo publicado no Valor Econômico em 14/5 – disse:

"...quando comparamos a taxa básica real de juros de curto prazo, isto é, a taxa básica de juros de curto prazo descontada a inflação prevista para os próximos 12 meses, chegamos aos seguintes resultados: 0,84% ao ano nos países desenvolvidos; 0,90% nos países em desenvolvimento (exceto Brasil); e 6,73% ao ano no Brasil.
A análise comparativa nos mostra que há, de fato, um preço que está totalmente fora de lugar no Brasil.
Um ponto totalmente fora da curva. Uma anomalia internacional. Trata-se da taxa real de juros, ou do preço do dinheiro, que no Brasil é cerca de 7 a 8 vezes mais caro que no resto do mundo.

Será que todo o mundo está errado e o Brasil certo?

Cabe ao Banco Central, órgão responsável pela política monetária no Brasil, responder esta questão".

Senão só com o macaco Simão.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

CONEXÕES INSANAS


Dizia algum filósofo cujo nome me foge à lembrança: “está tudo conectado”.

Um dos que teorizaram a asserção foi Carl Gustav Yung quando ele trata em seus escritos do que chamou de “inconsciente coletivo” que não passa, em última análise, de uma conexão inconsciente entre todos os seres.
Contudo, não se trata de matéria nova, em verdade uma crença milenar, bem característica dos povos das Antilhas e seus vodus como o candomblé dos afro-brasileiros.
Coisas interessantes e surpreendentes acontecem todos os dias e, sem dúvida, guardam conexão entre si. Eu mesmo saquei algumas de eventos recentes que passo a enumerar abaixo:

Primeiro, a vitória de Barack Obama na indicação do partido para concorrer às eleições presidenciais dos EUA em novembro.

Conservadores (um termo politicamente suave) como demonstraram ser, os norte-americanos ao longo da história, a eliminação de uma mulher da corrida presidencial não chega a ser surpresa.

O espantoso é a preferência demonstrada pelo candidato de descendência afro a uma mulher branca, e surpresa maior será ele bater o candidato republicano e seu plano de retirada das tropas do Iraque em cem anos.

Como inventores da democracia, não podemos eliminar o risco de vermos suas regras alteradas ou adaptadas nem reinventadas, a uma crescente predominância afro na etnia americana.

A segunda, é que o SUS irá efetuar cirurgia de mudança de sexo.

De quem? Seria uma pergunta natural antes de estabelecermos contato com a razão e, voltando a realidade, depararmos com mais um evento improvável.

Mas sempre uma pequena dúvida persiste.

Será que os brasileiros, mais particularmente essa galera do SUS, descobriram como transformar um macho em fêmea e vice-versa?

Testaram antes o procedimento em animais e se precaveram em não anunciar enganosamente alguma coisa híbrida, apartado dos opostos que conhecemos hoje como macho e fêmea?

Desde quando “mudança de sexo” é um problema da saúde pública?

Existe algum plano estratégico em efetuarmos mudanças de sexo em larga escala?


E o que tem isso a ver com Barack Obama e Hillary Clinton?

Muitas perguntas não têm como ser respondidas, mas a conexão entre os dois eventos é clara.

Hillary Clinton transformada em homem seria a opção sonhada pelos ditos conservadores para a presidência dos EUA.

Já o Obama transformado em mulher não bateria a Condolezza Rice, por motivos óbvios.

Terceiro, ontem recebi um e-mail oferecendo para tirar meu nome da lista do SPC e SERASA (sem eu estar na lista, lógico), pela reles quantia de 25 reais. Valor tão baixo, eles justificam, é porque a retirada é temporária. Com o tempo, os registros voltam mas enquanto isso, eu poderia usar meu crédito restabelecido tal qual uma foice e vivendo um verdadeiro carnaval.

A conexão com os eventos anteriores é gritante, nada que se possa fazer a um preço baixo pode ser verdadeiro, e aí é que entramos no país do carnaval com o quarto evento.

Quarto, o Unibanco lançou em minha conta no dia 2 de junho, dia do pagamento, um débito no valor de 22,50 sob o título de “tarifa light jun08”, nada surpreendente, concordo, surpreendente deve ser a tarifa heavy, fazendo-me crer que poderia ser pior que aceitar este alívio em meu bolso feito por mão leve e sem conexões.

No entanto, logo abaixo, aparece outro débito, de 38,70, sob o título *EXCEDENTE SAQUETERMINAL MAI08”.

Até o momento eu não sabia que tinha um banco (realmente nem parece banco) que se preocupava com minhas incursões ao caixa eletrônico impingindo-me uma multa toda a vez que ultrapassar certa quantia ou número de viagens.

Este conhecimento, desculpem-me, não me é dado a saber, para a minha própria segurança, creio.

Não posso deixar de fazer a conexão entre tal evento e a organização tarifária efetuada pelo BCB e os tópicos anteriores.
Daí inevitável que surja outra questão:

se não se consegue levar a cabo tarefas mais simples, como a organização de uma política tarifária para os bancos, o que poderemos esperar na consecução de uma coisa mais séria como a política econômica da nação?

Quinto, e advirto que vou parar por aqui, pois estando tudo conectado a coisa pode não ter fim.


Quinto, em inglês,” Oil surges $5.49 to settle at $127.79 as dollar retreats after European Central Bank president says bank may hike interest rates”.

Ou seja, óleo dispara com a fala do Banco Central Europeu de que pode vir a subir a taxa de juros. A declaração ocorreu após o BCE ter anunciado a manutenção da taxa básica em 4%.


Mas aqui nenhuma conexão deve ser feita com o BCB. O banco central é o europeu e a moeda é o euro.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Maria Fumaça


Quanto mais desagradável soa a verdade, mais tempo o homem demora a assimilar e se acostumar a ela.

Aos poucos, o mundo vai tomando consciência de que a era do petróleo farto e barato ficou para trás.

Falta, no entanto,muito chão entre a conscientização e a mudança de hábitos.

O mundo se tornou viciado ao estilo de vida enquanto reinava a abundância e tenderá a mantê-lo a custo inimaginável, tanto economicamente quanto socialmente.

Na quinta feira passada a International Energy Agency, IEA, um órgão de monitoramento dos recursos energéticos mundiais com sede em Paris, veio a público declarar que, ao contrário do que se previa antes, poderá haver um descompasso entre a oferta e a demanda do óleo em 10%, no curso das próximas duas décadas, como noticiado no Wall Street Journal.

A declaração baseia-se em um estudo em que a IEA promete divulgar os resultados em novembro próximo.

Espera-se alguma coisa surpreendentemente bombástica, como uma nova aferição das reservas petrolíferas mundiais e o estado de esgotamento dos campos de petróleo convencional, principalmente, talvez, evidência de que Oriente Médio não ter em quantidade condizente com o que se pensava.

Isto não é uma novidade para os chamados “peakists”, seres que crêem que a produção mundial atingiu seu pico ou em breve atingirá.

Hoje, até pelas projeções mais otimistas, está presente no cenário macroeconômico, em futuro próximo, custos de energia e alimentação bem mais elevados, em que o equilíbrio só seria alcançado após grotesca dança dos preços relativos, num trabalho menos afeto a economistas do que a videntes.

Mas há os que ousam.


Um desses, o Phd Robert F. Wescott, lançou em 2006, o que poderia representar para a economia mundial o óleo a 120 dólares o barril por um ano inteiro:

1-Efeitos Sobre a Demanda.
Preços mais altos do petróleo reduzem a capacidade de consumo do cidadão e provocam contração da demanda de todas as outras categorias de produtos. Maior gasto para encher o tanque significa menos dinheiro disponível para entradas de cinema, móveis, ou outros itens.

2- Efeitos Sobre a Oferta
Preços crescentes de óleo deprimem a margem de lucro das empresas na medida em que elas não possam repassar esses custos adicionais para os consumidores. Isto é particularmente válido para as “energívoras”, causando a redução de serviços ou corte nos níveis de produção. Por exemplo, uma empresa aérea que experimenta um aumento de 100% no custo da energia sofrerá aperto de caixa causando cancelamento de vôos, redução de pessoal e desistência em novas aquisições de aeronaves.

3-Efeitos Sobre a Política
Apesar dos bancos centrais darem mais atenção à “inflação central” ( que exclui energia e alimentos), preços mais altos do combustível darão lugar a temores sobre a alimentação de uma espiral inflacionária exigindo ação da autoridade monetária em restringir condições de crédito. Isto, ao seu turno, provocará a redução do investimento, construção imobiliária e vendas de produtos duráveis, como os automóveis.

4- Efeitos na Confiança e Psicologia do Mercado
Preços mais altos do óleo afetarão a confiança tanto do investidor quanto do consumidor, enfraquecendo a economia como um todo.

Observamos que, de uma forma geral, vem ocorrendo o que se previa. Como exemplo:

da Efe, em Nova York

A AMR, empresa que controla a American Airlines, anunciou nesta terça-feira (27) o cancelamento de algumas rotas, dentro de um plano para reduzir custos e resistir à forte alta do preço dos combustíveis e à desaceleração da economia.

Ou


da Efe, em Washington

A escalada do preço do petróleo pode levar os países a uma recessão, disse Noureddine Krichene, analista do FMI (Fundo Monetário Internacional), que pediu para que não sejam subestimados os efeitos inflacionários da energia na definição da política monetária.

Mas também, em sentido contrário, podemos ler coisas do tipo:

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, indicou nesta terça-feira, que a instituição ainda estuda novas ações para "facilitar o acesso da população ao crédito" ...
Hoje, o BC revelou que o volume de crédito atingiu o valor recorde de R$ 1,02 trilhão no mês de abril, o que representa 36,1% do PIB.

Mas não cabe aqui iluminar o que ainda está aceso em vivo debate, aprofundando as fissuras em nossa política econômica.

Afora isto, a verdade é que o Brasil vive seu melhor momento.

Enquanto os norte americanos se debatem amargando o preço da gasolina nas vizinhanças de US$ 4 o galão, nós, brasileiros , há muito, achamos normal US$ 6 o galão.

Mesmo que introduzíssemos um fator de correção cambial (o dólar parece estar subvalorizado, segundo a opinião corrente dos economistas antenados), praticamos já ha algum tempo algum valor perto de US$ 4,5 o galão para uma gasolina horrivelmente sulfurosa.

E ainda assistimos a uma demanda crescente deste combustível, incentivada pela facilidade de crédito, a indústria automobilística vem despejando, a taxas recordes, veículos de eficiência discutível, comprometendo o ar e o transito das grandes cidades.

Este é o primeiro grande erro de nossa política econômica.

Por outro lado, vamos aprofundando nossa dependência no diesel. Este chega neste mês a US$ 4,4 o galão nos EUA, aproximadamente o mesmo preço praticado em terra brasilis. Mas jogamos diesel fora em nossas estradas esburacadas, sucateamento , carência de incentivos e investimentos na manutenção e expansão de nossa malha ferroviária.

O diesel também abastece as nossas usinas térmicas, mesmo as que predominantemente queimem outros combustíveis, como o carvão. O programa bio-diesel avança por sobre a agricultura de grãos, inclusive a familiar, provocando escassez de alimentos, além da inflação.

Está claro que o país não tem sustentabilidade em seu sistema de transporte. Em um cenário de altos preços de diesel por algum tempo, estes, rapidamente, seriam repassados aos preços dos produtos alimentando a espiral inflacionária.

Este parece ser o principal ponto de vacilo político.

Diesel é nosso ponto frágil.

Embora, pelas declarações prestadas, o governo parece ciente de nossas deficiências no setor de transportes:

Para se transformar em um grande exportador mundial, "o que ocorrerá nos próximos anos", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu, nesta terça-feira (27/05), durante viagem a Minas Gerais, que o país precisa de "ter meios de transporte ágeis e baratos", o que ainda falta no Brasil.
"Noventa e cinco por cento do transporte brasileiro que vai para o exterior, vai de navio. Portanto, temos que fazer as nossas ferrovias chegarem até os principais portos brasileiros, e construir os portos que ainda precisamos construir", disse Lula, que participou da cerimônia de entrega da primeira locomotiva de grande porte produzida no Brasil.

O país toma medidas surpreendentes em sua política monetária inibindo investimentos na infra-estrutura de transportes

Mas não erramos em tudo. A política nuclear brasileira, embora lenta, é boa. A passo de lesma vamos construindo um submarino nuclear.

Sim, mas faz mais de 20 anos. Não por esta máquina estúpida, imprestável em tempos de paz, mas pelo domínio da tecnologia nuclear em transportes marítimos. Um ótimo substituto ao diesel. Para um país de grande costa e grandes cidades litorâneas parece perfeito.

ambém acerta ao sinalizar a vontade de construir mais usinas nucleares. Trata-se da antecipação do futuro, que hoje já vive a Indonésia:

No início do mês (maio), o presidente Susilo Bambang Yudhoyono anunciou que seu país estudava a possibilidade de deixar a OPEP por não ser mais um "exportador líquido da commodity"....

.. . "Nossos poços estão secando"...

Além disso, nos últimos anos se transformou em importador de petróleo, para satisfazer à crescente demanda energética do maior arquipélago do mundo e do quarto país mais povoado do planeta, com quase 240 milhões de habitantes.

A Indonésia, que foi um dos membros mais ativos da organização, admitiu no ano passado que suas reservas de petróleo se esgotarão em 2020.

Em virtude disso, o governo decidiu relançar seu programa de energia nuclear, que tinha paralisado desde a crise financeira asiática de 1997-1998.

E protestos contra a alta do petróleo se multiplicam pelo mundo. Em países importadores que subsidiam seus preços, como China, Índia e Taiwan terão que em algum momento rever sua política.
Acabou o que era doce, voltaremos à era da maria fumaça.

terça-feira, 20 de maio de 2008

O TREM



Palavras descarrilham um trem?
Por certo e por si só, palavras não descarrilham um trem
Mas a palavra pode levar à ação e a ação descarrilhar o trem
Em certo sentido, portanto, palavras descarrilham um trem.
Mas ao trem descarrilhado, para colocá-lo novamente na linha
Palavras, somente, não bastam.

Sabedoria são crenças.
O homem sem crenças está ao sabor das correntes.
O navegador arguto sabe que as correntes andam em círculos
Portanto, as usa somente quando lhe são convenientes.
Os acontecimentos são as correntes.
As correntes, os trilhos
E o amor, o trem.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A BOLHA


Em todos os lugares (normais) do mundo, uma alta da taxa básica de juros provocaria uma baixa generalizada das ações em bolsas de valores, e vice versa.

Quem acompanhou o Dow Jones nesta seqüência de cortes efetuados pelo FED pôde constatar isto.

Tal movimento está em linha com os fundamentos econômicos, onde altos juros inibem o investimento no setor produtivo.

No Brasil aconteceu o contrário. Não porque nosso parque industrial local não tenha se ressentido, mas porque dois outros movimentos estão compensando, com folga, a deterioração das finanças de nossas industrias.

O primeiro é o fluxo de capital estrangeiro que entra pela bolsa de valores.
O Brasil com a estabilização da moeda, com o crescimento do mercado de consumo interno e seus achados de petróleo, vem atraindo o interesse estrangeiro.
Com a desvalorização do dólar perante às outras moedas fortes este movimento é reforçado e ainda recebe um turbinamento extra quando os juros são aumentados.
Pelos fundamentos, quando a oferta é demasiada o preço cai. Assim foi o que aconteceu com o dólar, a sua queda vem dando origem ao segundo movimento.
È que as multinacionais tiveram seus lucros espetacularmente elevados com as variações cambiais. De repente o mesmo lucro em reais se transformaram em muito mais dólares, valorizando suas ações em seus países de origem e tal valorização propagada para cá.
Essa valorização, porém, é fictícia porque não tem a contrapartida produtiva.
É, como chamam, uma bolha.
A bolha é um fenômeno dinâmico, a manifestação de um desequilíbrio, significando que em algum ponto, em algum momento, se romperá.

No caso, não vejo mais que dois pontos de ruptura, ou o mundo trabalha mais por menos ou os EUA desvalorizam sua moeda, ou seja, eles é que trabalhariam mais, por menos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

BRASIL NA OPEP







A descoberta de petróleo na bacia de Santos deu destaque internacional ao Brasil reforçado, principalmente, pela atual turbulência no mercado de energia, e pelo crescimento de discussões quanto à estarmos perto ou não de limites de oferta do óleo no mercado global.

Crescem especulações sobre coisas do tipo de o país integrar a OPEP ou se tornar um exportador de peso deste bem precioso.

Mas a coisa não é assim tão fácil. Muito do que se veicula na imprensa não passa de movimento especulativo, visando beneficiar um ou outro grupo.

Recentemente, um desses movimentos, que teve alcance internacional, movimentando as bolsas de valores do mundo inteiro, foi o da Petrobrás e o "vazamento" de informações com relação ao campo Carioca.
Sabe-se da existência desse campo desde setembro de 2007.
Técnicos e estudiosos já falavam em janeiro passado que a reserva na bacia de Santos poderia chegar a 46,5 bilhões de barris.
Nenhuma novidade, portanto, mas soou como tal, levando à supervalorização das ações da companhia.

O que de fato temos?

O país realmente começou a sua produção de petróleo no mar em 1977 na bacia de Campos. Neste primeiro ano produziu, naquela bacia o equivalente a 2792 barris por dia pulando para 8504 barris por dia no ano seguinte. Isto era apenas 5% do que o país produzia, o óleo de extração mais fácil, em terra, era que dominava as estatísticas, representando cerca de 72% da produção.
Toda nossa produção em 1978 se resumiu ao equivalente a 160.000 barris por dia.
No mar, começamos pelo mais fácil, como era de se esperar, em campos de até 200 metros de lâmina d’água (espaço compreendido entre a superfície e o fundo do mar) e seguimos partindo para profundidade maiores, chegando próximo aos 2500 metros.

Depois de 30 anos, e muitas plataformas lançadas , a bacia de Campos passou a produzir o equivalente a 1.475 mil barris diários, representando 82% da produção total do país.

Neste contexto, nosso principal campo em operação é o de Marlim.

O Campo de Marlim foi descoberto em janeiro de 1985, através do poço RJS219A. Está distante aproximadamente 110 Km do litoral do Rio de Janeiro em lâmina dágua que vai até 1000 metros. Devido ao vulto e à complexidade do projeto, o desenvolvimento deste campo foi planejado em 5 módulos com sete unidades de produção (quatro do tipo plataforma SS "semi-submersível" - e 3 do tipo FPSO "Floating, Production, Storage and Offloading") e 1 unidade de tratamento e estocagem (do tipo FSO "Floating, Storage and Offloading"). O desenvolvimento definitivo do campo iniciou-se pelo Módulo um, com a instalação da plataforma P-18 em maio de 1994. O pico de produção de óleo foi de 586.315 bpd em 2002, quase a metade do total produzido em mar na época.
Hoje, porém, Marlim está em declínio, com produção por volta de 350.000 bpd, mesmo assim, é o campo que mais produz.
A Petrobrás, hoje, explora os limites da bacia de Campos com os campos de Marlim Sul e Roncador.
O Campo de Marlim Sul, descoberto em novembro de 1987 através do poço RJS-382, está situado a cerca de 120 km do litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, em lâminas d’água de 850 a 2400 m e ocupando uma área de aproximadamente 600 km2 .
Em 30 de abril de 1994 iniciou-se a produção do campo com o poço MRL-4, interligado à plataforma PETROBRAS-20, situada no campo de Marlim.
Atualmente esse poço produz para a plataforma PETROBRAS-26, também do campo de Marlim. Ainda em caráter piloto, em agosto de 1997 foi colocado em produção o poço MLS-3B, na área do Módulo 4, conectado a um navio do tipo Floating Production Storage and Offloading (FPSO), o FPSO-II, ancorado em profundidade d’água de 1.430 metros. Sua produção foi encerrada em outubro de 1998, após o término da campanha de coleta de dados.
Em 17 de dezembro de 2001, entrou em a operação a plataforma PETROBRAS-40 (P-40), com o início da produção do poço MLS-10, na área do Módulo 1. O Módulo 1 compreende a produção de poços diretamente para a plataforma semi-submersível P-40, em profundidade d’água de 1.080 metros. O óleo produzido, após sofrer tratamento na P-40, é transferido para um navio do tipo Floating Storage and Offloading (FSO), denominado PETROBRAS-38 (P-38), ancorado em profundidade d’água de 1.009 metros. O óleo armazenado na P-38 é transferido, periodicamente, para navios aliviadores, para transporte até os terminais no continente. O gás produzido é comprimido na P-40 e escoado para a Plataforma de Namorado-1 (PNA-1), no Campo de Namorado, se incorporando, a partir deste ponto, à malha de gasodutos da Bacia de Campos.
O Módulo 2 de Marlim Sul encontra-se em fase de desenvolvimento. Este módulo compreende a instalação de uma unidade de produção designada de PETROBRAS-51 (P-51), em profundidade d’água de 1.250 metros. A previsão é que a P-51, de US$ 830 milhões, deixe o estaleiro Brasfels rumo à locação em setembro. A plataforma deverá entrar em operação até dezembro deste ano. A unidade terá capacidade para processar e tratar 180 mil barris de petróleo e 6 milhões de metros cúbicos de gás, além de injetar aproximadamente 282 mil barris de água no reservatório diariamente.
Os Módulos 3 e 4 encontram-se em estudos. Estima-se o pico de produção em 419.000 bpd em 2010.
Hoje Marlim Sul produz cerca de 140.000 bpd

O Campo de Roncador, localizado na área norte da bacia, a cerca de 125 km do Cabo de São Tomé, foi descoberto em outubro de 1996, com a perfuração do poço 1-RJS-436A.
O Campo de Roncador possui uma área de 111 km² e está sob uma lâmina d'água (LDA) que varia de 1.500 a 1.900 metros.
Devido à extensão de sua área, o desenvolvimento da produção de Roncador foi planejado para ocorrer em 4 módulos.
A produção do campo teve início em 23 de janeiro de 1999, quando o navio de produção de posicionamento dinâmico (DP FPSO) SEILLEAN foi interligado ao 1-RJS-436A por um sistema pioneiro, que representou à época, recorde mundial de lâmina d'água: 1.853m.
Em maio de 2000 entrou em operação o Sistema de Produção do Módulo 1 de Roncador. Composto pela unidade de produção semi-submersível (SS) P-36 e pelo navio de estocagem (FSO) P-47.
As inovações tecnológicas aplicadas pela Petrobras na implantação do Sistema Piloto de Roncador e no Sistema de Produção do Módulo 1 renderam à companhia o Distinguished Achievement Award da OTC 2001.
Após o acidente com a plataforma P-36, em 15 de março de 2001, que resultou no seu naufragio 4 dias depois, a concepção de desenvolvimento de Roncador foi revista e o Módulo 1 foi rebatizado como Módulo 1A, passando a ser dividido em 2 fases. A Fase 1, concebida como uma solução de curto prazo para a retomada da produção do campo, é composta de 8 poços produtores, além do poço produtor RO-42, do Módulo 2 , e 3 injetores interligados a uma unidade de produção do tipo FPSO, com as seguintes características:
Capacidade de processamento de óleo 100.000 bpd

Lâmina D’água 1.290m
Esse FPSO, denominado FPSO BRASIL, foi afretado à empresa SBM - Single Buoy Moorings Inc. e convertido em tempo recorde, tendo retomado a produção dos poços que estavam interligados à P-36 em 8 de dezembro de 2002, cerca de 20 meses após o acidente ocorrido com a plataforma.
Dos 8 poços produtores que integram a Fase 1 do Módulo 1A de Roncador, todos tem suas linhas de produção de óleo conectadas diretamente ao FPSO BRASIL.
A Fase 2, etapa de conclusão do Módulo 1A, foi concluída com a entrada em operação em novembro de 2007, de uma plataforma do tipo semi-submersível (SS), denominada P-52. Essa unidade, ancorada em LDA de 1.800 metros, tem capacidade para processar e tratar 180.000 bpd de óleo, com pico de produção previsto para o segundo semestre de 2008.
O Módulo 2, também concluído, consiste na utilização de uma embarcação do tipo FPSO, denominada P-54, que iniciou produção em dezembro de 2007. Esta ancorada em LDA de 1.400 m, sendo dotada de facilidades de produção para processar e tratar 180.000 bpd de óleo.
Os Módulos 3 e 4 de Roncador encontram-se atualmente na fase de concepção de alternativas de seus sistemas de produção. A Petrobras estima que até 2015, Roncador ultrapasse a marca dos 470.000 barris/dia de produção.

Em resumo:
4 módulos sendo 2 em desenvolvimento e 2 em estudo Pico de produção: 473 mil bpd em 2015
Produção média em março de 2008 : 146.000 bpd
Depreende-se disto que, o que vale realmente não é exatamente a extensão do campo e sim qual a vazão máxima de extração, a dificuldade e a qualidade do óleo.

Somando a lâmina d'água mais a profundidade de soterramento, há poços na Bacia de Santos onde a Petrobras terá de ir a até 7.300 metros de profundidade total.
''É muita rocha'', como já disse o gerente-geral da Unidade de Negócios da Bacia de Santos (UNBS), José Luiz Marcusso.
Na Bacia de Campos, a maior lâmina d'água é de 2.500 metros e o soterramento é, em média, de 1.500 metros. Um ou outro campo ultrapassa três mil metros, mas os grandes campos estão entre 800 e 1.500 metros.
Na Bacia de Santos, no entanto, a média fica na faixa de 4.500 metros, podendo chegar a 5.300 metros de perfuração na rocha.
A profundidade total na bacia de Santos é quase o dobro da de Campos.
Maior profundidade, em regra, representa menor produção.
Numa aproximação bem simples. Se a Petrobrás colocar duas vezes mais dinheiro do que colocou em Campos e na metade do tempo, e também levando em conta os novos desafios que aparecerão na exploração da bacia de Santos, podemos esperar uma produção de algo próximo de 1.000 mil barris diários em 2025 na região, dos quais, 500 mil apenas compensarão o declínio de produção dos campos mais antigos em terra e em Campos.
Assim, tudo correndo bem, o Brasil estará produzindo 2.500 - 2.700 mil bpd em 2025, numa projeção bem otimista.
Considerando que o crescimento do PIB demanda um crescimento de consumo de energia mais ou menos no mesmo passo, estaríamos, naquele ano, apenas mantendo a nossa auto-suficiência.
Mesmo que num esforço supremo nos transformássemos em exportador de petróleo, o que de bom nos traria isto?
Países exportadores, no geral, utilizam dessa receita para enriquecimento de minorias e investimento bélico.
Mesmo que o Brasil se portasse totalmente diferente, seria ainda equiparado a um piloto insensato que, numa prova de distância, vende seu combustível para comprar algum conforto, como um ar condicionado, colocando em risco sua própria permanência na prova.
Ao contrário, se fôssemos sensatos, estaríamos investindo mais na redução do consumo através da melhoria da eficiência de nossos veículos, estímulos à produção de veículos mais econômicos e inibição à produção e importação de veículos gastadores.
Vencedor é o que chegar mais longe.